
A alta de preços de memória RAM e SSD passou a pesar no bolso do consumidor brasileiro no fim de 2025 e no começo de 2026. Encarecendo upgrades e elevando o custo final de PCs montados e notebooks. No varejo, a mudança de patamar aparece com clareza em produtos de alto giro, como SSD NVMe M.2 de 1 TB que eram vistos por volta de 350 reais em 2025 e passaram a aparecer acima de 950 em poucos meses, variando conforme estoque e lote de cada loja.
A disparada não tem uma causa única e no Brasil, costuma ser amplificada por câmbio, carga tributária e custos de importação. Há ainda um fator de mercado que aparece com força em períodos de alta, o ajuste oportunista de preço em marketplaces. Quando parte dos vendedores tenta capturar margem adicional mesmo em estoque comprado antes da escalada, aproveitando a referência de valores mais altos nas vitrines. O resultado é um repasse rápido assim que o estoque mais barato se esgota, com o preço médio subindo em degraus e as promoções desaparecendo.
Ao mesmo tempo, o mercado mudou de forma rápida e direta. Fabricantes passaram a direcionar mais capacidade para data centers e projetos de inteligência artificial, onde a demanda é mais alta e as margens de lucro são maiores. Reduzindo a disponibilidade para o mercado de consumo e tornando o varejo mais sensível a qualquer oscilação de oferta.

A alta começou no mercado global e avançou até o Brasil
Desde setembro de 2025, o mercado spot de DRAM entrou em uma sequência de altas que pressionou custos ao longo de toda a cadeia. Em relatório publicado em novembro, a TrendForce registrou que o preço de chips de memória DDR5 acumulava alta de 307% desde o começo de setembro. Enquanto DDR4 também avançava fortemente, sinalizando oferta restrita e dificuldade de compradores acompanharem os reajustes.
Quando esse estresse chegava ao varejo, as diferenças regionais aparecem mais do que em contratos. Na Europa, um índice do 3DCenter acompanhando o varejo alemão indicou que DDR5 ficou em torno de 4,4 vezes mais caro. Nos Estados Unidos, a cobertura de varejo apontou aumentos quase em tempo real em grandes lojas online. Kits de DDR5 passando a custar perto do quádruplo do que custavam a alguns meses antes.

Para SSD, o quadro é parecido, mas com uma dinâmica de oferta ainda mais apertada no horizonte. Um executivo da Kioxia afirmou que a era do SSD barato de 1 TB terminou e que a produção de NAND já estaria vendida para 2026. No mesmo sentido, a SK hynix também sinalizou falta de folga ao dizer que sua capacidade de DRAM, NAND para 2026 também já estava esgotada.
Como a alta se transforma em preço no varejo
A diferença entre uma alta observada no atacado e o preço na prateleira costuma estar no ritmo de reposição. Quando a negociação diária aponta escassez, distribuidores e montadoras ajustam pedidos para garantir volume, e esse movimento chega ao varejo em ondas. Primeiro, somem as ofertas e os modelos mais procurados, depois a reposição passa a ocorrer com custo maior, e por fim o preço fica acima do que era comum.
No caso do Brasil, há um agravante que nem sempre aparece em análises globais. Mesmo quando a alta internacional, o consumidor ainda pode ver novas correções, porque o varejo local está precificando o próximo lote, não o passado. Em outras palavras, o preço não sobe apenas porque o componente ficou mais caro lá fora. Ele sobe porque o custo de reposição mudou e porque o mercado local tenta se proteger de novas oscilações.
Fabricantes chineses entram no jogo em meio ao aperto global
Enquanto o mercado ocidental se consolidava na inteligência artificial em 2025, outro player avançava bem abaixo dos holofotes, em um movimento paralelo ao que também se observa no mercado de CPUs. A consolidação de fabricantes chineses como participantes relevantes no setor de memória ganhou corpo, e a CXMT (ChangXin Memory Technologies), sediada em Hefei. No qual se posiciona como uma empresa integrada de DRAM, com atuação declarada em chips para PCs, servidores e dispositivos móveis. Buscando ampliar portfólio e escala em um mercado historicamente concentrado.
O crescimento deixa de ser apenas percepção e passa a aparecer em leituras de mercado. Dados da Counterpoint Research para o terceiro trimestre de 2025 colocam a CXMT com cerca de 5% do mercado de DRAM. A empresa fica atrás de SK hynix, Samsung e Micron, mas à frente de outros nomes menores.

Da fatia de mercado ao salto tecnológico
O ponto que reforça a mudança de fase não está apenas na fatia de mercado. Ele aparece também na evolução técnica por trás dela. Uma análise citada pelo South China Morning Post baseada em teardown (desmontagem técnica) da TechInsights de um módulo DDR5 comercial, indica que chips DDR5 da CXMT já surgem associados a um processo em torno de 16 nm. É um salto importante para uma empresa que entrou tarde em um setor dominado por poucos players. Isso não coloca a China no topo da tecnologia de memória, mas sugere um encurtamento de distância em ritmo suficiente para influenciar estratégias de preço, mix de produção e segmentação de mercado.
O mesmo padrão de avanço pode ser observado no mercado de CPUs, onde a China também tenta reduzir a dependência externa e já entrega produtos competitivos. O Loongson 3A6000 apareceu em benchmarks com desempenho próximo ao Intel Core i3-10100F. Um modelo popular lançado no fim de 2020 e agora mais recentemente, a Hygon que passou a chamar atenção com a C86-4G em um PC gamer doméstico. Possuindo resultados que se aproximam de Core i7 de 2023, indicando que a distância tecnológica vem diminuindo rápido.
Controvérsias antigas e novas no mercado de memórias
O aperto atual tem relação com o foco em inteligência artificial. Ainda assim, isso não explica sozinho a desconfiança no setor. O mercado de memória carrega um histórico de controvérsias, principalmente em ciclos de alta. Nesses períodos, consumidores e fabricantes de PCs questionam se o preço reflete só oferta e demanda. Ou se decisões de produção e precificação influenciam o movimento. Essa percepção não é nova e acompanha o segmento há anos.

O exemplo mais lembrado no passado envolve acusações e investigações ligadas à precificação em DRAM. Nos Estados Unidos, a Micron chegou a se declarar culpada em 2002 em um caso de fixação de preços envolvendo DRAM, e ao longo dos anos 2000 o setor foi alvo de investigações e processos em diferentes países, o que ajudou a consolidar a imagem de um mercado com pouca concorrência real. Em outra frente, a Comissão Europeia multou em 2010 fabricantes de DRAM por um cartel envolvendo coordenação de preços, um episódio que costuma voltar ao debate toda vez que o preço dispara.
Soma-se a isso um histórico de disputas por propriedade intelectual e acusações de espionagem industrial, também recorrentes no setor de semicondutores, o que reforça a percepção de um mercado altamente estratégico e competitivo, com histórico conturbado.
Cartéis, disputas e acusações no histórico do setor
No ciclo mais recente, o debate mudou de forma, mas não desapareceu. A controvérsia de hoje gira menos em torno de “cartel explícito” e mais em torno de decisões de produção e priorização, com fabricantes deslocando capacidade para produtos de maior margem e para data centers, enquanto o consumo fica mais exposto a oscilações de oferta e reajustes por lote.
No Brasil, o efeito mais visível desse ciclo continua sendo o custo de reposição. Quando o estoque antigo se esgota, o novo lote já chega reprecificado, e o varejo ajusta valores em degraus, com grande variação entre marcas e lojas. Para o consumidor, o resultado lembra o que foi observado no período de mineração entre 2020 e 2021, quando a demanda elevou o preço de placas de vídeo. Agora, com a expansão de infraestrutura de inteligência artificial, a pressão sobre a cadeia de componentes aumenta e pode influenciar o custo de diferentes categorias de eletrônicos, além de RAM e SSD.
Ainda assim, o mercado pode ficar mais previsível em 2026. Mesmo assim, RAM e SSD tendem a seguir longe dos patamares de 2025. A prioridade global para data centers e inteligência artificial segue drenando capacidade. Além disso, o setor continua orientado a produtos de maior margem. Isso reduz as chances de um retorno rápido aos preços anteriores. Por isso, a normalização tende a ser lenta e desigual. Mesmo com alívio pontual, o ajuste deve ocorrer por etapas. Promoções podem voltar em alguns lotes mas ainda assim, não se espera uma reversão ampla e contínua.
Nota: Esta matéria foi construída com base em relatórios e publicações públicas consultados até 24 de janeiro de 2026. O mercado de memória é volátil e dados, preços e previsões podem mudar rapidamente. Atualizações poderão ser feitas se houver necessidade editorial.


